PARTE 6: Feedback é crucial!
29/03/2008
“O filme que está na sua cabeça e até mesmo o
filme que você vê antes de seus olhos pode não ser o filme que o público vê.”
Chegamos à temida estréia de seu filme! Não, não é um mau momento, mas pode lhe causar bastante apreensão: o filme pode se sair muito bem ou nem tanto assim. De qualquer forma, finalmente o filme está nas ruas. Mesmo parecendo que esse é o momento onde o futuro do seu filme será decidido, acredite, você ainda tem um caminho a percorrer. Deve-se olhar para esse momento como um teste, um rascunho do que há por vir. Ainda será preciso bastante trabalho… Calma, está quase pronto!
A menos que estejamos falando do seu corte final; Ai sim, nesse caso, a estréia é o momento decisivo para seu filme. Eis o que leva diretamente à minha questão: Inicie o processo a seguir a partir de seu primeiro corte. Objetivamente (palavra que nos guia) feedback[1] é crucial para qualquer filme, especialmente para os bons filmes.
Primeiro de tudo: Não mostre seu filme apenas para aquelas pessoas que acham lindo tudo o que você faz. Mamãe pode ser a fã número um do seu filme, mas ela não será a pessoa mais indicada para o que você precisa. Assim, também vale a situação contrária: não mostre o filme para aquelas pessoas que não gostam de nada que você faz. Então, se o hobby preferido do seu irmão é te aborrecer, bem, descarte seu irmão.
Vamos lá: Comece reunindo um grupo de amigos em quem você confie (pessoas que lhe apóiam, mas que não tem medo de discordar de suas opiniões) – pessoas que você conhece os gostos e os valores que carregam. Essas pessoas lhe fornecerão uma crítica honesta sobre seu trabalho. Por sua vez, uma boa crítica lhe apontará as sacadas que você teve, apontará o que não está funcionando e o que poderia ter sido abordado de uma forma mais interessante, enfim, os pontos negativos e positivos do seu trabalho, as impressões primeiras. Mostrando seu filme para esse pequeno grupo de amigos antes de colocá-lo nas ruas, irá não apenas prevenir que pontos negativos acompanhem o filme lá fora, mas irá lhe proporcionar uma seleção de pessoas que você poderá pedir por conselhos quando alguma coisa dentro do filme estiver lhe incomodando e você não souber o que é. E isso é muito comum. São essas pessoas tão necessárias, que lhe ajudarão a pensar caminhos para o filme até que você decida seu corte final.
Conforme você vai cortando seu filme, experimente gradualmente, introduzi-lo a novas pessoas; sem se esquecer do seu grupo inicial de amigos como bons conselheiros. Nesse período, você está no seu tempo de errar e consertar seus erros, de aprender o que funciona e o que não funciona no seu filme. Assim, é no final desse processo o tempo de começar a incorporar aquelas pessoas que você acha que não necessariamente irão gostar ou até mesmo entender o filme como espectadores. Por que? Nesse ponto em que o filme deve se sustentar por suas próprias pernas, às vezes, o retorno daqueles que não são, necessariamente, seu público alvo, poderá vir a ser inestimável para o filme. Trata-se de um retorno daqueles que o assistem sem o forte sentimento pré-estabelecido que você tem. Podem ser eles os responsáveis por identificar exatamente o que não está funcionando no filme e o porque.
Mas como usar o feedback de forma que beneficie o filme? Os realizadores veteranos sabem como fazer isso muito bem. Mas, para aqueles menos experientes, vão ai umas dicas que vocês precisam saber: Primeiro (não vou mentir), receber feedback e tomar nota das criticas pode ser algo realmente exaustivo (física e mentalmente). Quando você faz um filme, você quer que ele seja um grande filme. E quer também, que aquelas pessoas que você espera que amem o filme, realmente amem o filme.
Mas, muitas vezes, isso simplesmente não acontece. Por que?
O filme que está na sua cabeça e até mesmo o filme que você vê antes de seus olhos pode não ser o filme que o público vê. Você está tão ligado ao filme que pode não conseguir enxergar certos detalhes, buracos e incoerências. Eles passam despercebido, naturalmente. Então você se pergunta: “Mas eu entendi isso, está ali, tão fácil! Porque os outros não entendem?”. Bem… Basicamente, porque não está na tela. O seu grupo de amigos irá ajudá-lo a discernir o que está na tela e o que não está.
A primeira “rodada” de feedback poderá parecer, digamos, bastante brutal e é natural que o realizador adquira uma postura defensiva e desconsidere algumas críticas recebidas. E considerando certamente que você não pode agradar a todos o tempo todo, como você saberá distinguir dentre todas as observações recebidas, o que considerar para o filme e o que descartar? Um dos caminhos é recorrer a “regra de 3”. Se três daqueles seus amigos de confiança, encontrar alguma passagem problemática no filme, acredite. Tem algo ali que só você não vê. Críticas recorrentes significam que alguma coisa não está funcionando. Estas são as críticas que você deverá trabalhar para corrigir o mais depressa possível. Não sabe como? Peça conselho ao seu grupo de confiança e deixe-os argumentarem sobre como você poderia solucionar o problema. As pessoas gostam de dar as suas opiniões. Agora é o momento de aproveitar isso para seu próprio benefício. Mesmo se você não gostar de nenhuma das idéias apresentadas, elas podem vir a apontar novas direções que você jamais considerou e também, novas idéias podem surgir. Por mais que você ouça o que não quer, escutar o que os outros tem a falar pode ser importante para o filme. E, por favor, faça suas decisões com base naquilo que é bom para o seu filme, não cabe aqui, satisfazer os caprichos inúteis de um amigo inconveniente.
Tenha em mente, feedback é crucial para o realizador que busca distribuir seu filme.
O distribuidor não conhece você e, francamente, não se importa com o longo tempo e duro trabalho que você deu para terminar seu filme. O distribuidor se importa com o filme que está na tela e se ele pode ou não vendê-lo para o público. Fim da história. Ele não vai parar pra pensar em lhe oferecer criticas construtivas ou esperar enquanto você reflete sobre seu filme a fim de deixá-lo mais atraente. Na maioria dos casos, os distribuidores querem um filme finalizado que eles possam colocar diretamente numa sala de cinema para um público pagante. E quanto mais público pagante, melhor.
Se o seu orçamento permitir, é sempre uma ótima pedida contratar um profissional especializado em consultoria de distribuição. Geralmente, eles também atuam como produtores executivos ou representantes de vendas. O beneficio de se contratar esse profissional, claro, é que ele lhe fornecerá uma análise real focada no ponto de vista do distribuidor. Eis as notas que você irá considerar seriamente.
O consultor de distribuição não tem qualquer interesse pessoal no filme – e este é um ponto extremamente importante, pois lhe garante uma perspectiva puramente profissional.
Para um filme em que você depositou tanto de você e trabalhou duro encima, não faz sentido não aproveitar plenamente o processo de corte (mesmo nos orçamentos mais apertados) para oferecer ao distribuidor um filme finalizado, lapidado. As recompensas podem valer muito a pena.
[1] Feedback: Opinião das pessoas.
*A série de textos é dividida em 10 partes e contém algumas das informações presentes no livro “The Insider’s Guide to Independent Film Distribution” (Focal Press, maio de 2007) de Stacey Parks, fundadora do portal on-line Film Specific, do qual sou associada desde novembro passado e aconselho a todos colocarem o portal nos seus “favoritos”.
* “The ten-part series The Beginner’s Crash Course In Film Distribution distills some of the information contained within Film Specific founder, Stacey Parks’s book The Insider’s Guide to Independent Film Distribution (published by Focal Press, May 2007) into a mini-guide for independent filmmakers.”
Entry Filed under: A Escola de Distribuição, AULA 6. Tags: Corte Final.

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